Crónica de D. João I – Prólogo

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Grande licença deu a afeiçom a muitos que teverom carrego d’ordenar
estorias, mormente dos senhores em cuja mercê e terra viviam e hu forom
nados seus antigos avós, sendo­‑lhe muito favoravees no recontamento de
seus feitos. E tal favoreza como esta nace de mundanal afeiçom, a qual nom he salvo conformidade dalgu ˜a cousa ao entendimento do homem. Assi que a terra em que os homens per longo costume e tempo forom criados, gera hu ˜a tal conformidade antre o seu entendimento e ela, que havendo de julgar algu ˜a sua cousa, assi em louvor como per contrairo, nunca per eles he dereitamente recontada. Porque louvando­‑a dizem sempre mais daquelo que he, e se doutro modo nom escrevem suas perdas tam minguadamente como acontecerom. Outra cousa gera ainda esta conformidade e natural inclinaçom segundo sentença dalgu ˜s, dizendo que o pregoeiro da vida, que he a fame, recebendo refeiçom pera o corpo, o sangue e espritus gerados de taes viandas têm hu ˜a tal semelhança antre si que causa esta conformidade. Algu˜s outros teverom que esto decia na semente, no tempo da geraçom. A qual despõe per tal guisa aquelo que dela he gerado, que lhe fica esta conformidade também acerca da terra, como de seus dívidos. E assi parece que o sentio Tulio quando veo a dizer: «Nós nom somos nados a nós mesmos, porque hu ˜a parte de nós tem a terra e outra os parentes». E porém o juízo do homem acerca de tal terra ou pessoas, recontando seus feitos, sempre çopega. Esta mundanal afeiçom fez a algu ˜s estoriadores que os feitos de Castela com os de Portugal escreverom, posto que homens de boa autoridade fossem, desviar da dereita estrada e correr per semideiros escusos por as minguas das terras de que eram, em certos passos claramente nom serem vistas. E espicialmente no grande desvairo que o mui virtuoso Rei da boa memoria dom Joam, cujo regimento e reinado se segue, houve com o nobre e poderoso Rei dom Joam de Castela, poendo parte de seus bons feitos fora do lovor que mereciam, e e ˜adendo em algu ˜s outros da guisa que nom acontecerom atrevendo­‑se a pubricar esto, em vida de taes que lhe forom companheiros, bem sabedores de todo o contrairo. Nós certamente levando outro modo, posta adeparte toda afeiçom que por azo das ditas razões haver podiamos, nosso desejo foi em esta obra escrever verdade sem outra mestura leixando nos bons aquecimentos todo fingido louvor e nuamente mostrar ao pobo quaesquer contrairas cousas da guisa que aveerom. E se o senhor Deus a nós outorgasse o que a algu ˜s escrevendo nom negou, scilicet em suas obras clara certidom da verdade, sem dúvida nom somente mentir do que sabemos mas ainda errando, falso nom quiriamos dizer. Como assi seja que outra cousa nom he errar, salvo cuidar que he verdade aquelo que he falso, e nós engando per ignorancia de velhas escripturas e desvairados autores, bem podiamos ditando errar. Porque escrevendo homem do que nom he certo, ou contará mais curto do que foi, ou falará mais largo do que deve. Mas mentira em este volume, he muito afastada da nossa vontade. Ó com quanto cuidado e diligência vimos grandes volumes de livros de desvairadas linguagens e terras! E isso mesmo púbricas escrituras de muitos cartarios e outros logares, nas quaes depois de longas vegilias e grandes trabalhos mais certidom haver nom podemos, da conteúda em esta obra. E sendo achado em algu ˜s livros o contrairo do que ela fala, cuidae que nom sabedormente mas errando muito, disserom taes cousas. Se outros per ventuira em esta cronica buscam fremosura e novidade de palavras e nom a certidom das estorias, desprazer­‑lhe­‑á de nosso razoado, muito ligeiro a eles d’ouvir, e nom sem gram trabalho a nós de ordenar. Mas nós nom curando de seu juízo, leixados os compostos e afeitados razoamentos que muito deleitom aqueles que ouvem, ante poemos a simprez verdade que a afremosentada falsidade. Nem entendaes que certeficamos cousa salvo de muitos aprovada e per escrituras vestidas de fé. Doutra guisa ante nos calaria mos que escrever cousas falsas. Que logar nos ficaria pera a fremosura e afeitamento das palavras, pois todo nosso cuidado em isto despeso nom abasta pera ordenar a nua verdade? Porém apegando­‑nos a ela firme, os claros feitos dignos de grande renembrança do mui famoso rei dom Joam sendo Mestre, de que guisa matou o conde Joam Fernandez, e como o pobo de Lixboa o tomou primeiro por seu regedor e defensor e depois outros algu ˜s do regno e dhi em deante como regnou e em que tempo, breve e sãmente contados, poemos em praça na seguinte ordem.